5. INTERNACIONAL 5.9.12

1. AGORA, TODO JOGO  DECISO
2. A QUESTO QUE IMPORTA
3. A GUERRA INCONCEBVEL

1. AGORA, TODO JOGO  DECISO
A dois meses da eleio, o republicano Mitt Romney faz uma conveno para humanizar-se e cativar o eleitorado de que mais precisa: mulheres, latinos e negros.
ANDR PETRY, DE TAMPA

     Convenes partidrias nos Estados Unidos, aqueles eventos que sempre terminam sob uma chuva de papis picados e bales patriticos, so o que os americanos tm de mais semelhante ao horrio eleitoral gratuito brasileiro: saem no horrio nobre da TV, parece que no vo terminar nunca mais e os polticos dizem o que bem entendem. A nica diferena  que so levadas a srio. Em mdia, um candidato cresce 5 pontos nas pesquisas depois da conveno do seu partido. H quatro anos, o democrata Barack Obama subiu 4 pontos. Seu adversrio, o republicano John McCain, cresceu 6. O recordista  Bill Clinton, que disparou 16 pontos depois da conveno democrata em 1992. Na semana passada, o republicano Mitt Romney fez a sua conveno em Tampa, no litoral oeste da Flrida. Tornou-se o candidato oficial do Partido Republicano  Casa Branca e, se mantiver a escrita dos 5 pontos, saltar  frente de Obama  pelo menos at o fim desta semana, quando os democratas faro a sua conveno na Carolina do Norte.
     Para virar o jogo a seu favor, Mitt Romney precisava descolar-se da imagem, construda pela oposio, de um plutocrata que enriqueceu com prticas empresariais predatrias e no faz ideia de como  a vida do americano comum. Precisava, enfim, de acordo com o vocabulrio dos marquetlogos, humanizar-se e enterrar a impresso de que  meio autmato e infenso s emoes dos seres de sua espcie. No seu discurso, Romney fez o que pde. Falou da religio que vinha escondendo  ele  mrmon de quatro costados , exibiu um milmetro e meio de emoo ao homenagear sua mulher e sua me e baixou o sarrafo na economia claudicante de Obama. Prometeu criar 12 milhes de empregos. Saiu aplaudido e, por uns instantes, at pareceu que os ultraconservadores estavam genuinamente empolgados com sua candidatura.
     O fardo mais pesado para humanizar Romney foi entregue  melhor mensageira possvel: sua mulher. Ann, com quem ele  casado h mais de quatro dcadas e tem cinco filhos. Diante de 20.000 pessoas no Tampa Bay Times Forum, mas dirigindo-se aos vrios milhes que a acompanhavam pela TV, Ann foi o melhor da festa. Vocs podem confiar em Mitt, disse, com seu jeito gracioso. Carismtica e bonita aos 63 anos, Ann talvez tenha feito at um mal involuntrio ao marido-candidato ao exibir uma fartura de tudo o que lhe falta  espontaneidade e autenticidade.
     Adiada em razo da ameaa do furaco Isaac, a conveno durou trs dias interminveis e foi meticulosamente coreografada para chegar aos bolses eleitorais em que Romney patina: mulheres, latinos e negros. No hospital da poltica, Romney est doente com as mulheres, est na UTI com os latinos e j foi para o necrotrio com os negros. Por isso, sobre o palco da conveno, cujo cenrio era recortado por imensas telas de alta definio, deu-se um desfile de incontveis mulheres, vrios latinos e alguns negros. Nesse esforo, a estrela mais reluzente foi Condoleezza Rice, a mulher negra de origem pobre que cresceu no sul segregado e chegou a secretria de Estado no governo de Bush filho. Rice fugiu dos clichs, nem sequer disse o nome de Obama, e mesmo assim levantou a plateia. Ela quer escolas para os negros das periferias e armas para os rebeldes srios.
     Como habitualmente acontece com as legendas apeadas do poder, o Partido Republicano vive uma fase de transio durante a qual est se dando uma ferrenha disputa por hegemonia. Nos entreveros visveis esto partidrios de Ron Paul, deputado do Texas com ideias libertrias e coerncia frrea, que lutam para influenciar os rumos do partido. S ele faria o corte de despesas de que este pas precisa, diz Devin Watkins, 28 anos, que atravessou os EUA, de Oregon at a Flrida, para gritar o nome do seu dolo. Os delegados do Missouri, em outra rinha visvel, esto revoltados com a cpula republicana por ela ter censurado um candidato do estado para quem a gravidez decorrente de estupro  voluntria. Foi apenas um deslize do candidato, minimiza Pat Thomas, me de dois filhos, presente  sua terceira conveno.
     Nos confrontos menos visveis esto os evanglicos, os chamados falces do dficit e os bilionrios que garantem privacidade atrs dos comits de doao financeira. Nessas guas profundas, o Partido Republicano est sendo empurrado cada vez mais para a direita. Ele mantm a plataforma clssica  estado menor, corte de despesas e menos impostos , mas h setores que temem que o radicalismo reduza a defesa do estado essencial a uma luta antiestado. No campo do comportamento, a plataforma aprovada na semana passada est mais radicalizada que a de 1980, antes considerada um marco na ascenso do conservadorismo republicano. No que se refere ao aborto, o partido ficou mais radical que o candidato: no abre exceo nem para casos de estupro ou de risco de vida da gestante.
     A elite republicana concluiu que bater na tecla da economia e da gerao de empregos no basta para vencer Obama. Em razo disso, as bandeiras esto se multiplicando. Romney escalou para vice o deputado Paul Ryan, cuja mera presena na campanha jogou luz sobre o Medicare, o programa de assistncia  sade dos idosos. Pela mesma razo, os bolses mais conservadores em questes sociais, como aborto e casamento homossexual, tambm esto voltando a ter espao. S quem segue na geladeira  Sarah Palin, que eletrizou a conveno h quatro anos. Ela s deu pitacos pelo Facebook. O que havia de mais parecido com sua presena em Tampa estava num clube de strip-tease onde uma estrela porn se apresentava como ssia de Sarah Palin  neste caso, dizem os donos do local, foi um sucesso suprapartidrio. 


2. A QUESTO QUE IMPORTA
Para onde iro os Estados Unidos  uma pergunta que depende das curvas da economia  e da maneira como cada candidato pretende dom-las.
GIULIANO GUANDALINI

     Os nmeros da economia so duros para a campanha de Barack Obama. Nos ltimos quatro anos, o setor privado americano fechou 3 milhes de vagas e existem 13 milhes de pessoas sem trabalho. A taxa de desemprego mantm-se acima de 8%. A renda mdia no pas segue como uma das maiores do mundo, mas est em queda e  inferior ao que era uma dcada atrs. Existem 46 milhes de pessoas (ou um a cada sete americanos) recebendo o auxlio do programa social Food Stamp, o Bolsa Famlia dos Estados Unidos. A fraqueza reflete o crescimento modesto do PIB, ao redor de 2% ao ano, um ritmo abaixo do necessrio para acelerar a criao de vagas. A retomada segue teimosamente lenta mesmo depois do pacote de 800 bilhes de dlares em investimentos e subsdios aprovados por Obama. Sem falar nos estmulos monetrios do Federal Reserve, o banco central americano, e sua poltica de taxa de juro zero.
      verdade que Obama assumiu, em 2009, um pas  beira da depresso econmica. A taxa de desemprego estava prxima de 10%, e havia uma ameaa de quebra generalizada no sistema financeiro. A ao do governo, em boa parte uma continuao do que havia sido iniciado nos ltimos meses de George W. Bush, evitou uma reedio da Grande Depresso. O governo alega que o respaldo dado a empresas em dificuldades e a ampliao dos gastos pblicos salvaram 3,4 milhes de empregos. Mas os custos foram elevados. A dvida pblica federal dobrou. O total de ttulos pblicos nas mos dos credores americanos supera 11 trilhes de dlares. Em termos proporcionais ao PIB,  o maior valor desde a II Guerra Mundial. O aumento nas despesas e a queda na receita tributria lanaram as finanas pblicas em um desequilbrio que perdurar por anos.
     Obama e sua equipe defendem-se afirmando que a maior parte do rombo nas contas pblicas se deve ao custo das guerras no Iraque e no Afeganisto e s redues de impostos aprovadas por Bush. Dizem ainda que a intransigncia dos republicanos no Congresso impediu a aprovao de uma reforma tributria. A estratgia de lanar a responsabilidade sobre Bush e de condenar a oposio por fazer oposio pode ajudar Obama na prestao de contas perante seu eleitorado cativo. Mas a conquista dos indecisos exigir um maior esforo de convencimento. Obama prope uma nova rodada de investimentos pblicos. De onde sair o dinheiro? Do aumento dos impostos sobre os mais ricos, os 2% com renda anual superior a 250.000 dlares. Especialistas que fizeram contas concluram ser impossvel pr as finanas em ordem simplesmente aumentando a carga sobre os ricos.
     Para Mitt Romney, a fragilidade decorre de polticas falhas. Ele afirma que o aumento contnuo dos gastos pblicos e a perspectiva de elevao dos tributos levaram a incertezas em relao  conjuntura futura, com reflexos na perda de investimentos produtivos. Romney est sendo assessorado por economistas respeitados que j estiveram em gabinetes republicanos, entre eles Greg Mankiw e Jolin Taylor. Eles prepararam um documento no qual detalham como Romney almeja impulsionar a economia. O imposto de renda seria diminudo para todos. Proporcionalmente, a queda seria maior para os ricos. As empresas tambm pagariam menos tributos. Os gastos pblicos seriam limitados a 20% do PIB. Romney planeja tambm atrair investimentos reduzindo a burocracia nos rgos estatais. Os Estados Unidos, antigo paradigma mximo em competitividade empresarial, tm perdido posies nos rankings internacionais, principalmente na qualidade da infraestrutura e da mo de obra. Pelo plano republicano, o PIB voltaria a crescer ao ritmo de 4%, e seriam abertos 12 milhes de postos de trabalho em quatro anos.
     A campanha presidencial espelha o debate entre acadmicos sobre qual a melhor sada para a crise. A corrente ligada aos democratas quer mais impostos, mais gastos pblicos e mais regulao  mais governo, enfim. Os republicanos acreditam que insistir nesse caminho significar o fim da prosperidade americana. Quem quer que saia vitorioso nas urnas ter uma dura batalha para fazer sua viso prevalecer no Congresso e conseguir que a maior economia do planeta supere a sua dcada perdida. 

A FRAGILIDADE AMERICANA...
Os efeitos da recesso e o aumento das despesas pblicas elevaram a dvida federal americana. Os bilhes gastos pelo governo Obama no foram suficientes para fazer a taxa de desemprego recuar aos nveis anteriores  crise iniciada em 2008.
Dvida federal (total de ttulos pblicos, em trilhes de dlares:
2000: 3,4 (George W. Bush)
2007: 5 (George W. Bush)
2012: 11 (Barack Obama)

Desemprego (taxa para o ms de julho)
2000: 4% (George W. Bush)
2001: 4,6% (George W. Bush)
2002: 5,8% (George W. Bush)
2003: 6,2% (George W. Bush)
2004: 5,5% (George W. Bush)
2005: 5% (George W. Bush)
2006: 4,7% (George W. Bush)
2007: 4,7% (George W. Bush)
2008: 5.8% (George W. Bush)
2009: 9,5% (Barack Obama)
2010: 9,5% (Barack Obama)
2011: 9,1% (Barack Obama)
2012: 8,3% (Barack Obama)

...E AS PROPOSTAS DOS CANDIDATOS
(Barack Obama)
Crescimento e Emprego: Plano de investimentos pblicos de 447 bilhes de dlares, sobretudo em obras de infraestrutura
Tributos: Aumento no imposto de renda para os 2% mais ricos da populao, cuja renda anual supere 250.000 dlares
Dvida Pblica: Reduo do dficit oramentrio por meio do aumento dos impostos sobre os ricos e de uma reforma tributria

(Mitt Rommey)
Crescimento e Emprego: Diminuio da burocracia e de tributos para atrair mais investimentos privados, como no setor de energia
Tributos: Diminuio no imposto de renda para todas as faixas salariais e queda no imposto de renda das empresas
Dvida Pblica: Corte no oramento federal para limitar os gastos em 20% do PIB (hoje eles so de 24%)


3. A GUERRA INCONCEBVEL
Agosto foi o ms com o maior nmero de mortes na Sria desde o incio do levante armado contra a ditadura Assad. No h bonzinhos nessa histria, mas, como relata de Alepo o fotgrafo Adam Dean, nada  pior para os civis do que os bombardeios areos ordenados pelo governo.

     Todos acreditam nas atrocidades praticadas pelo inimigo, e recusam-se a crer nas cometidas pelo seu prprio lado, sem ao menos examinar as provas, escreveu o ingls George Orwell sobre a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), da qual participou durante dez dias antes de ser ferido com um tiro no pescoo. At poucas semanas atrs, a maioria dos relatos e das imagens da violncia que est destroando a Sria h um ano e meio vinha de um dos lados do conflito. O site YouTube  abastecido diariamente com vdeos terrveis, de autenticidade nem sempre inequvoca, produzidos pelos rebeldes com o intuito de mostrar ao mundo os atos brutais do regime do ditador Bashar Assad. Da mesma forma, o governo srio apresenta verses mirabolantes, difundidas pelos canais de TV do pas, sobre quem seriam os verdadeiros autores da barbrie nacional, atribuindo a matana de civis a terroristas financiados pelo Ocidente. Poucos observadores e jornalistas independentes haviam conseguido entrar no pas, e muitos dos que o fizeram morreram.
     H cerca de um ms, a verdade sobre guerra civil na Sria comeou a sair da penumbra em que se encontrava depois que combatentes anti-Assad tomaram o posto de fronteira de Bab Salama, que d passagem para a Turquia, e asseguraram o controle dos povoados e da estrada na rota entre o pas vizinho e Alepo, a cidade mais populosa da Sria e uma das mais destrudas pelos combates. Abriu-se, assim, um corredor relativamente seguro para a entrada de armas para os rebeldes e da imprensa internacional, no mesmo momento em que o conflito se alastra e mata como nunca. Estima-se que 4000 srios tenham sido mortos em agosto (dos quais 1000 combatentes pr-Assad), mais do que em qualquer outro ms desde o incio da revolta  que comeou em maro do ano passado com manifestaes pacficas por reformas polticas e econmicas, prontamente reprimidas por franco-atiradores do governo, e que aos poucos se transmudou em um levante armado. Segundo a ONU, a luta entre os rebeldes do Exrcito Srio Livre, formado principalmente por muulmanos sunitas, e as foras leais a Assad, apoiado por alauitas e por uma parcela de outras minorias do pas, como os drusos e os cristos, j provocou 18.000 mortes e obrigou 1,2 milho de pessoas a abandonar suas casas. Nos campos de refugiados da Jordnia esto chegando at crianas rfs que cruzam a fronteira sozinhas.
     Entre os mltiplos fatores, trs se destacam para explicar o aumento no nmero de mortes. O primeiro foi a tentativa dos rebeldes de tomar Damasco e Alepo. O governo conseguiu recuperar os bairros da capital em que os insurgentes haviam se aventurado e impediu seu avano em Alepo, mas o fato  que os combates, antes restritos a cidades menores e  zona rural, agora ocorrem em meio s reas densamente povoadas dos grandes centros urbanos. O segundo fator  o desespero. Em meio  batalha por Damasco, em julho, quatro membros do gabinete de segurana de Assad foram mortos em um atentado a bomba. Conforme o conflito se acirra e chega mais perto de Assad e seus prceres, menos eles sentem que tm a perder com a intensificao da violncia. Dessa postura de indiferena nascem episdios como o massacre em Daraya, no sbado 25, o mais letal desde o incio da revolta. Calcula-se que 380 pessoas tenham sido mortas na cidade, situada nos arredores de Damasco, muitas delas, inclusive crianas, executadas dentro de casa, aparentemente por integrantes de uma milcia pr-Assad. O terceiro motivo para o recrudescimento das mortes de civis  o uso de avies e helicpteros para atacar indiscriminadamente alvos civis e rebeldes. S em Alepo, os caas do governo bombardearam dez padarias onde os moradores faziam fila para comprar comida. Se  verdade que ambos os lados do conflito j cometeram sua dose de atrocidade, tambm no h dvida de que a ttica de terra arrasada fez do governo, at agora, o maior algoz de seu povo. Essa realidade foi testemunhada pelo fotgrafo americano Adam Dean, colaborador frequente de VEJA. Seu relato est nas pginas a seguir.

Os avies despejaram suas bombas sobre o centro de comando do qual eu acabara de fugir. Erraram o alvo, destruindo a casa onde moravam os Kayali e os Katab

     A batalha por Alepo, o centro industrial e econmico da Sria, no se tornou o ponto de virada que levaria  queda de Damasco, como esperavam os integrantes das foras rebeldes. O regime de Assad est sendo forado a adotar medidas cada vez mais desesperadas e desproporcionais, usando avies de guerra e artilharia terrestre. O governo reluta em enviar as tropas para combates diretos por temer as deseres em massa de um Exrcito j com o moral abalado. Como resultado, o nmero de civis mortos nos bombardeios aumenta a cada dia, e milhares de moradores fugiram  muitos pela segunda vez, depois de escapar no comeo da guerra de Homs, uma das primeiras cidades a ser atacadas pelo regime, para Alepo.
     Entre as famlias que permaneceram em Alepo estavam os Kayali e os Katab. Eles pensaram que estariam em segurana se se escondessem no poro de sua casa, mas se enganaram. Eu vi quando os caas de fabricao russa MIG, da Fora Area Sria, comearam a voar em crculos a poucos quilmetros de distncia de onde eu estava, em um centro de comando do Exrcito Srio Livre localizado em uma velha escola. Perto dali moravam os Kayali e os Katab. Os avies faziam disparos constantes e intensos sobre um subrbio densamente povoado.
     Os caas ento silenciaram, e intu que no era prudente permanecer naquele quartel-general improvisado dos rebeldes. Eu mal havia cruzado o ptio do colgio, correndo, quando os avies chegaram e despejaram suas bombas sobre o centro de comando do qual eu acabara de fugir. Erraram o alvo. As bombas caram a 50 metros de distncia, destruindo a casa de trs andares onde moravam os Kayali e os Katab, matando doze membros dessas famlias, dos quais quatro eram crianas.
     Esse tipo de tragdia ocorre diariamente em Alepo, e tambm nos subrbios de Damasco, enquanto a guerra civil persiste. O Exrcito Srio Livre, mal armado e quase sem munio,  formado por civis e alguns poucos desertores das foras de Assad. A maioria dos rebeldes que eu encontrei eram muulmanos sunitas de diferentes origens sociais. Havia comerciantes, pequenos agricultores, e at um jovem que trabalhava numa loja de roupas da GAP em Dubai e outro que fazia faculdade no exterior e decidiu voltar para lutar na Sria.
     Os rebeldes pouco podem fazer contra os bombardeios areos, j que no possuem armamento adequado. Abdulqadr Saleh aI Hajji, que usa o nome de guerra Hajji Mari, comandante da Brigada da Unio, responsvel pela tomada de Alepo, ironiza as promessas do governo dos Estados Unidos e da Inglaterra de oferecer ajuda no letal aos rebeldes. O que tm a nos oferecer contra esses ataques areos so equipamentos de comunicao? Que utilidade isso pode ter para a situao que vivemos aqui?, diz Hajji, um comerciante de sementes de 32 anos sem experincia militar prvia. Ele  sunita e muito religioso, mas em nenhum momento deixou transparecer o desejo de fazer uma guerra santa contra as minorias do pas. Seu objetivo  derrubar o velho regime e o cl Assad. Esse pequeno exemplo, porm, no serve para descartar os temores de que a guerra se torne um conflito de contornos sectrios. Por enquanto, as foras rebeldes aceitam qualquer um que queira se juntar  sua luta. Mas basta dizer que a Fora Area Sria confia seus caas apenas a pilotos alauitas, a mesma faco religiosa de Assad, para entender como as rixas religiosas podem determinar os rumos do conflito.
     Ningum consegue mais se manter neutro ou imune aos horrores da guerra. Nem a classe mdia urbana, nem os habitantes de cidades humildes como Tal Refaat, 40 quilmetros ao norte de Alepo, onde testemunhei o funeral de Ayman Alito, de 25 anos, morto por um estilhao na cabea enquanto lutava ao lado de outros rebeldes no subrbio de Salaheddin, em Alepo. O jovem vendia galinhas antes de ver as primeiras fotos de soldados atirando contra manifestantes no sul da Sria, e decidiu se juntar aos protestos contra Assad. Acabou preso. Na cadeia, foi espancado e teve a mo esmagada. Ele no era um homem instrudo, nem se interessava por poltica, mas viu as matanas na televiso e quis fazer algo, diz seu primo Mahmoud. Na casa da famlia, a me de Ayman e outras mulheres choraram sobre o defunto antes que ele fosse levado pelos homens para a mesquita. Em respeito ao sangue derramado em combate, o corpo de Ayman no foi lavado, como seria o costume. O funeral foi apressado porque os caas comearam a sobrevoar a cidade. Um dia como tantos outros na rotina dos srios.

